domingo, 18 de dezembro de 2011

CONHECIDOS E ELEITOS

Romanos 8:28-30

Paulo muda um pouco o seu discurso. Isto fica claro na forma como ele inicia este trecho. Grande parte das traduções portuguesas colocam expressões do tipo “E sabemos” ou “Mas sabemos”; são expressões que ferem um pouco o sentido. Paulo não está ligando este trecho com o anterior, mas ele usa este trecho como preparação para o que virá mais adiante.
Este trecho é um dos mais difíceis de compreender. Muitos têm procurado argumentar dizendo que Deus predestinou aqueles que primeiramente conheceu. Outros afirmam que isto não é possível uma vez que colocaria no homem méritos para a salvação e isto não ocorre. Até o presente momento não tenho uma posição com relação a isto. Primeiro porque consigo ver com muita tranquilidade a responsabilidade do homem e a soberania de Deus. Mas, por outro lado, não gosto de ferir aquilo que o texto realmente diz.

Paulo usa uma expressão que é traduzida como “Antemão conheceu” ou “Dantes conheceu”, que deu origem a expressão “prognóstico” em nosso idioma. Esta expressão não dá margem para o sentido de conhecer ser o mesmo que amar como tantos comentaristas afirmam. Esta afirmação é puramente especulativa, uma vez que o contexto do texto não faz uma alusão a nada mais que possa lembrar isso. Não concordo em forçar uma interpretação de um texto somente para dar base àquilo que acredito. Prefiro dizer que não sei.
Outro problema também é afirmar que a soberania de Deus é ferida se o homem for capaz de pedir socorro. O aspecto da soberania é muito mais amplo do que um simples ato do próprio Deus. Os atos de Deus estão debaixo de sua soberania e de sua presciência. A ação do homem quer para se perder, quer para se salvar, estará sempre dentro da vontade soberana de Deus, e não haverá mérito algum no homem, uma vez que ele precisa descer do pedestal do seu orgulho para se humilhar diante de Deus.
Também é problemático afirmar que Deus determina e depois conhece, principalmente porque nos dois textos onde isto ocorre (Rm 8:29; I Pe 1:2), a sequência é invertida, e está sequência tem muita importância na língua original do Novo Testamento. Muito embora, creio que, de alguma maneira, as duas coisas andem juntas.
Outra questão importante a ser analisada são os atributos envolvidos. Se afirmarmos que a soberania (atributo incomunicável) é maior ou vem antes da onisciência (atributo incomunicável) estou montando uma imagem de Deus desordenado ou desarranjado. Os atributos de Deus são perfeitamente equilibrados. Nenhum se sobressai ou precede o outro. Mais uma vez fico com a resposta que não sei.
Por último, é complexo tentar dizer que o homem tem alguma capacidade de tomar decisão considerando tudo que até aqui Paulo falou na carta. Alguns têm argumentado que o homem não consegue sair, mas pode pedir socorro, como vez o cego Bartimeu. Claro que isto é contra atacado pelo argumento que é Deus que coloca nos eleitos a capacidade de pedir socorro. Mais uma vez eu não sei como isto funciona.
Resta uma pergunta: Como funciona então? Creio que a resposta não é simples. Acredito realmente da forma que está escrito: “Os que dantes conheceu também os predestinou”. Como funciona este conhecimento antecipado? O que Deus vê antes que o faz eleger? Ele vê algum mérito em nós?
As respostas para estas perguntas são indefinidas, as duas primeiras eu digo que não sei. A última posso responder com certeza que não, Deus não vê mérito algum em nós. Mas assim como um jovem se encantada por outra jovem, sem conseguir explicar, assim é a presciência de Deus ao lado de sua soberania. Não sei explicar, mas só sei que existe.
Murray, embora firme e convicto na predestinação, argumenta que prevê de antemão a fé não elimina nem refuta a eleição soberana de Deus porque esta é baseada na fé que nos é dada. Concordo plenamente, mas ainda assim fica no ar a pergunta: Por que ela foi dada a mim? Por que ele escolheu alguns e outros não? Ainda assim não creio que haja resposta humana que realmente atenda estas perguntas. Mas creio sim que Deus de alguma maneira, que só ele sabe, nos escolheu desde a fundação do mundo através de sua presciência, isto sim é claro na Bíblia, e isto basta para minha certeza da esperança eterna.
Por tudo isso, e muito mais, admiro a tradução das duas primeiras estrofes do cantor cristão para o hino 377:
Não sei por que de Deus o amor
A mim se revelou,
Por que razão o Salvador
Pra si me resgatou.

Mas eu sei em quem tenho crido,
E estou bem certo que é poderoso
Pra guardar o meu tesouro
Até o dia final.

Ignoro como o Espírito
Convence-nos do mal,
Revela Cristo, Verbo seu,
Consolador real.

Mas eu sei em quem tenho crido,
E estou bem certo que é poderoso
Pra guardar o meu tesouro
Até o dia final.

Apesar de toda esta dificuldade que cerca este texto, ele nos traz alguns aspectos maravilhosos sobre o amor de Deus a seu povo. Vejamos;

1.         Tudo que nos ocorre é para nosso bem (v. 28)
“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto.”
Paulo expressa que nada pode prejudicar aqueles que são eleitos por Deus. Ao afirmar que todas as coisas contribuem juntamente para o bem, o apóstolo está dizendo que mesmo aquelas coisas que são ruins para nossa vida servem para o nosso bem. Nesse aspecto isto pode significar tanto para o bem nesta vida como para a futura. Não há nenhuma promessa de Paulo que tudo é para o bem nesta vida. Até porque, no contexto do texto ele já afirmara que as aflições atuais não se comparam à glória que está reservada para nós e será revelada (v. 18).
Murray afirma que “no soberano amor e sabedoria de Deus, tudo é levado a convergir e contribuir para este alvo”, ou seja, o bem dos que amam a Deus. O famoso comentarista ainda afirma que muitas coisas envolvidas podem ser mal em si mesmas, mas Deus, não perde o controle de nada, faz com que estas coisas trabalhem para o bem dos seus. Foi exatamente isto que aconteceu com Jó. Deus olhou e viu em Jó um homem justo e, apesar de todos os esforços de Satanás, tudo contribuiu para o bem de Jó. É claro que isto não significa que iremos usufruir deste bem aqui nesta vida. Isto não se pode perder de vista, uma vez que é este o contexto inicial deste trecho.
Amados, isto deveria servir de consolo e segurança para nossas vidas. Como bem lembrou Stott, Deus age com vigor incessante, enérgico e propositadamente em favor dos seus. Deus não abandona os seus. Esta é a promessa do Salmo 23: “ Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,  não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo”. Deus acompanha cada passo seu, meu amado, e deseja que o resultado final seja o melhor para você. É o amor de Deus colocado à nossa disposição. É amor de Deus fazendo com que nossos corações sintam segurança em sua presença e possa ter a certeza que nada nos separará dele (v. 39).
O que a teologia moderna precisa entender é que o desejo do nosso melhor da parte de Deus, não compreende necessariamente que as coisas ocorram do jeito que queremos. O nosso bem, não compreende o que desejamos para esta vida, pois, afinal, o que Deus deseja é que aproximemos da imagem de seu filho e isto é o nosso maior bem.

2.         Tudo que nos ocorre é para nos aproximarmos da imagem de Jesus (v. 29)
“Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.”
Paulo segue em uma argumentação progressiva. Nesta linha ele vai mostrar qual é o decreto ou propósito que ele deixa no ar no verso 28. Escrevendo aos efésios, o mesmo apóstolo fala que Deus concedeu à igreja dons para que possamos alcançar a estatura do varão perfeito (Ef 4:13). O maior bem que Deus deseja para seu povo é isto.
Quando ainda no Éden o homem desobedeceu a Deus e manchou a sua imagem e semelhança com o criador. Através de nossos esforços não conseguimos alcançar novamente a perfeição desta imagem. Jesus, vindo ao mundo, veio para mostrar como deve ser esta perfeição.
Jesus foi humilhado, machucado, execrado, entre muitas outras coisas, mas em nenhum momento revidou ou mostrou ódio pelos seus agressores ou adversários. Jesus se manteve dentro da vontade de Deus, mesmo diante de situações difíceis a que foi submetido. Jesus amou seus inimigos intensamente a ponto de interceder por eles na cruz afirmando que eles não sabiam o que faziam. Tudo isso, e muito mais, faz de Jesus perfeito e pleno. E Paulo está argumentando que tudo que nos ocorre é para que possamos nos aproximar desta plenitude da imagem de Cristo. 
É mais uma coisa que nos dá alento e conforto diante das dificuldades. É neste contexto que o apóstolo está escrevendo. Lembre-se que a esperança da glória final se inicia quando contemplamos que esta glória é maior que nossa leve e momentânea tribulação. É exatamente esta ligação que Paulo faz neste três versículos para nos preparar para a poesia maravilhosa do final deste capítulo.
Nesta vida jamais iremos alcançar esta perfeição, mas no dia final, através de nossa glorificação alcançaremos.

3.         Tudo que nos ocorre é para trilharmos o caminho da glorificação (v. 30)
“E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou.”
O caminho da glorificação começa na eternidade quando Deus nos escolhe. Passa pela chamada que o Senhor nos faz através da pregação da Palavra, pois afinal, a fé vem pelo ouvir a Palavra. Culmina no ato da justificação na cruz do calvário através da aceitação do sangue de Jesus derramado naquele madeiro.
Um aspecto maravilhoso se reforça em meio a tudo isto: a necessidade de pregarmos o evangelho. Veja bem que entre a predestinação e a justificação está a chamada. Esta só pode ocorrer mediante a pregação e a exposição da Palavra de Deus. Paulo irá trabalhar melhor isto no capítulo 10, por enquanto fica a ideia de que Deus não salva sem que a pessoa seja chamada mediante a pregação da Palavra da Verdade.
Paulo encerra o trecho transicional entre a dor das perseguições e o fato que nada nos separará do amor de Deus, mostrando que no futuro temos algo maravilhoso nos esperando – a glorificação.
Mais uma vez meu amado Deus está mostrando através de sua Palavra um conforto muito grande a seu povo. Ele está mostrando que não precisamos ter preocupações com as aflições desta vida porque, uma vez que fomos justificados, também seremos glorificados. O tempo verbal utilizado por Paulo para as expressões “predestinou”, “chamou” e “glorificou” remete à ideia de um passado indeterminado e instantâneo, ou seja, em um momento do tempo Deus fez tudo isso de antemão.
O mais importante de tudo isto é que a glorificação só pode ocorrer para aqueles que aceitam, pela fé, a obra de Cristo na cruz. Jesus foi a cruz para nos libertar das garras do pecado e nos levar para este caminho, você precisa aceitar esta obra. Claro que Deus sabe o que se passa no coração e que ele sabe de antemão a resposta, mas compete a mim e a esta igreja lhe mostrar o caminho, a decisão é sua, a responsabilidade é toda sua. O único culpado pela sua condenação é você mesmo, mas o único responsável pela sua salvação é Deus, que o resgata através da obra da cruz. 

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