terça-feira, 10 de julho de 2012

O CUIDADO COM OS FRACOS NA FÉ


Romanos 14:1-23

Chegamos a um dos capítulos mais esclarecedores da Bíblia em termos de comportamento cristão. Muitos ainda ficam presos ao que podem ou não fazer como cristãos. Alguns acham que a igreja atual se tornou mais aberta ao pecado por causa disso. Outros acreditam que hoje temos uma melhor interpretação dos textos bíblicos por isso temos mais liberdade. Houve uma época em que ser protestante era não poder fazer uma série de coisas. Creio que de fato o que tem faltado é equilíbrio, mas acima de tudo verdadeiro conhecimento bíblico.
Neste e no próximo sermão veremos o que a Bíblia tem a nos oferecer quanto ao comportamento do que podemos ou não deixar de fazer. Dentro do mesmo capítulo aprendemos duas lições maravilhosas. A primeira, que veremos neste momento, é o cuidado que se deve ter com os fracos da fé. A segunda é mostrar que o fraco pode se fortalecer prestando atenção nos conselhos que Paulo estabelece e naquilo que a Bíblia de fato determina. Creio que o clericalismo fez com que os mais simples acreditassem no que estavam aprendendo sem fazer como os bereanos, ou seja, conferindo nas Escrituras (At 17:11).
Vale lembrar mais uma vez que o contexto do texto se inicia no capítulo 12 e se encerra no 15. Paulo está mostrando que tudo que fazemos deve estar debaixo da “boa, agradável e perfeita vontade de Deus”.
É tremendo notar como Paulo consegue ao mesmo tempo admoestar os fortes a não destruírem os fracos e exortar os fracos a se fortalecerem. Se hoje tivéssemos em mente o que Paulo nos ensina, muitas dissensões e divisões poderiam ser evitadas na igreja.
Passemos agora a analisar o cuidado com os fracos na fé.

1.    Evitar o preconceito e agir com tolerância (v. 1)

“Ora, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas.”

Devemos ter em mente que muitas questões não são tão simples de se resolver quanto parece. O que Paulo está mostrando é que aqueles que são mais fortes na fé devem acolher os mais fracos sem preconceitos. Já basta o preconceito que existe no coração do mais fraco.
Nossas convicções não precisam ser alteradas, basta ter respeito e tolerância. Devemos acolher aquele que está mais fraco. Que se encontra sem forças para continuar na caminhada por causa de questões pequenas.
Claro que não podemos confundir os fracos na fé com aqueles que são legalistas ou tradicionalistas, mas na realidade não conhecem de fato a Palavra de Deus. Paulo combate o legalismo e o tradicionalismo em praticamente todas as suas epistolas às igrejas.
Vale então descrever algumas diferenças entre o legalismo e a fragilidade da fé. Primeiramente o legalista ele tenta sempre confrontar e tirar da igreja aquilo que ele julga errado. O fraco na fé normalmente se desanima e não tem ânimo de participar dos trabalhos da igreja. O legalista entende que tudo que é pecado aos seus olhos deve ser tirado do seio da igreja. No passado as igrejas batistas excluíam pessoas que assistiam futebol no domingo à tarde em seu bairro. Isso é uma característica legalista. O fraco na fé normalmente se sente diminuído e rejeitado dentro da igreja quando sua posição não é respeitada. Estas diferenças devem ficar claras até para que possamos entender o que Paulo realmente deseja neste ponto do texto.
Quando alguém acha que pode fazer alguma coisa que outro crê que não pode, deve-se se avaliar sempre a questão de ser um legalismo real ou apenas alguém que foi ensinado em uma doutrina legalista e se tornou um fraco na verdadeira fé cristã. Com raras exceções, normalmente os fracos na fé são frutos de um discipulado mal feito. Veja o caso de Roma. Paulo escreve combatendo os judaizantes. Em alguns capítulos ele foi muito duro com eles. Estes judaizantes foram os grandes responsáveis pela formação daqueles que agora Paulo chama de fracos na fé. Foram os judaizantes que inseriram diversas regras judaicas dentro do cristianismo. Uma delas é a de não poder comer carne.
No verdadeiro cristianismo todos deveriam conviver em harmonia. Para isto os mais fortes precisam respeitar os mais fracos e viver sempre buscando estar dentro da vontade de Deus. A tolerância com os fracos da fé deveria ser um princípio norteador dentro da Igreja de Cristo. Afinal é Deus quem julga cada pessoa.


2.     É Deus quem julga a atitude de cada um (v. 4, 10)

“Quem és tu que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai; mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar”
“Mas tu, por que julgas teu irmão? Ou tu, também, por que desprezas teu irmão? Pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Cristo.”

É interessante notar que Paulo escrevendo aos Coríntios fala que a Igreja deve julgar, mas agora ele fala que cada um deve prestar conta de si mesmo diante de Deus. O que precisa e deve ficar muito claro é que Paulo neste capítulo se refere a coisas que não são necessariamente pecado. Enquanto que aos coríntios ele estava trabalhando para que o pecado fosse extirpado de dentro da Igreja.
Creio firmemente que aquilo que a Bíblia determina como pecado não pode se encaixar nesta ideia de Paulo. O julgamento que Paulo está dizendo consiste em ações que não são descritas na Bíblia e que nossa consciência deve falar mais alto. Comer ou não carne é uma questão de consciência e não de mandamento. Embora o Antigo Testamento mostre através da lei civil e religiosa de Israel algumas proibições (Lv 11), no Novo Testamento vemos Deus dizendo que tudo que ele criou é puro (At 10:9-16). O que deve ficar nítido em nossa mente é que a interpretação bíblica deve ser feita sempre pela ótica do Novo Testamento e não do Antigo.
Por outro lado, por mais que os fortes possam estar certos, não compete a eles julgar o comportamento daqueles que são mais fracos. Há questões que são puramente pessoais, e cada um vai prestar conta diante de Deus. Normalmente tanto fracos como fortes afirmam que a Bíblia norteia todos os atos da vida. Sou forçado a dizer que a Bíblia norteia tudo que diz respeito à vida do homem, mas ela não entra em méritos pessoais, pois os mandamentos principais não determinam isto. Na Bíblia não encontramos o nome de nosso cônjuge, mas ela norteia quais devem ser as características e quais não devem ser para que possamos escolher o mais perto possível da vontade de Deus.
Deus conhece o coração de cada um de nós. Embora os fracos sejam normalmente legalistas, eles são sinceros naquilo que creem. Só isso já deve servir de respeito para aqueles que se julgam mais fortes.
O mais importante de tudo isto é saber que Cristo deve ser Senhor de todos. Se Cristo realmente for o Senhor de nossa vida não vamos abandonar uma igreja por causa de pequenas discussões ou porque temos pensamentos diferentes de pessoas de outras gerações ou contextos. É Jesus o nosso elo comum que nos sustenta conforme o seu poder. Afinal cada um prestará conta de si mesmo diante de Deus.

 3.    Cada um é responsável pelos seus atos (v. 12)

“De maneira que cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus.”

Conheço pessoas que mudam de igreja porque em suas igrejas não era permitido bater palmas, dançar ou coisas semelhantes a estas. Creio que estas coisas se encaixam perfeitamente no ensino de Paulo. Mas tais pessoas mostram que são imaturas ou que não se converteram de fato. Por que afirmo isso? Porque na realidade o que Paulo está dizendo que aquele que crê que não há mal algum em comer carne deve respeitar a posição do outro e deixar de comer carne na presença do mais fraco, mas em nenhum momento Paulo disse que ele deveria sair da igreja por causa disso.
A Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira em seus princípios básicos determina em seu 4º principio a absoluta liberdade de consciência, e em seu 5º princípio a responsabilidade individual diante de Deus. Certos ou errados, aqueles não fazem algumas coisas não podem ser julgados, pois eles prestarão contas diante de Deus no dia final. Isto vale também para aqueles que saem de suas igrejas por causa da fraqueza dos outros. A diferença é que não há mandamento bíblico que proíba ou incentive danças, palmas ou coisas parecidas (refiro-me a mandamentos, não passagens poéticas ou históricas isoladas). Em contrapartida há uma ordem para não deixarmos a nossa congregação (Hb 10:25) e diversas passagens que enfatizam o valor da igreja local.
Julgar o mais fraco pelo seu temor ou pela sua obediência cega é muito perigoso. Precisamos ter em nossa mente que cada um deve estar inteiramente seguro em seu próprio ânimo (v. 22, 23).
A força de uma igreja local está em ter uma aceitação das diferenças culturais, étnicas e etárias que possam existir. Mas como isto é possível? Paulo já respondeu isto quando falou no amor nos relacionamentos. A ideia paulina foi fazer que os irmãos recebessem o ensinamento teórico e agora ele mostra como deve ser isto aplicado na prática. O mais forte que ama, se sacrifica pela igreja e faz por amor este sacrifício.
Hoje o que mais tem faltado nas igrejas é a tolerância entre gerações. A geração atual não consegue conviver com gerações anteriores que chegam cheias de tradições, doutrinas legalistas, entre outras coisas. Mas o que Paulo está mostrando que não precisamos deixar de conviver, antes devemos aprender a ceder.

4.    Os fortes têm que aprender a ceder (v. 20)

“Não destruas por causa da comida a obra de Deus. É verdade que tudo é limpo, mas mal vai para o homem que come com escândalo.”

O grande exemplo neste quesito é Jesus. A Bíblia mostra que sendo Ele Deus, não usurpou ser igual a Deus, antes reduziu-se em forma de servo (Fp 2:5ss). Ceder aqui envolve humildade. Hoje poucos gostam de ceder. Cada um quer viver de seu jeito. Cada um acha que está certo e deve se apresentar diante de Deus do seu jeito. O que Paulo está mostrando que não é isto que deve ocorrer. Aqueles que são mais fortes devem se humilhar para que possamos ter uma convivência pacífica dentro da Igreja de Cristo.
Fortes na fé são pessoas equilibradas doutrinariamente. São pessoas que têm na Bíblia o centro de sua vida cristã e que não abandonam a Palavra de Deus em função de seus desejos. Os fortes na fé são aqueles que se entregam a Jesus e olham somente para Ele, por isso não estão na igreja porque podem fazer isto ou aquilo, pelo contrário, o que move os verdadeiros fortes na fé é seu amor a Deus e à sua Igreja. Por tudo isto, e muito mais que veremos no próximo sermão, os verdadeiros fortes cedem. Eles sabem que algo melhor os espera. Eles entendem que Jesus fez um sacrifício muito maior do que o deles. Eles reconhecem que qualquer coisa que venham a fazer nesta vida, não se compara ao grande esforço de Cristo que se humilhou até a morte, e morte de cruz.
O mais importante de tudo é o que Paulo afirma no verso 8, Jesus é o Senhor de todos. Talvez nunca iremos nesta vida alcançar um consenso dentro da igreja, mas se Jesus realmente for o Senhor de nossas vidas poderemos nos sacrificar para que a glória dele brilhe e a nossa diminua (Jo 1:29)

Nenhum comentário:

Postar um comentário