segunda-feira, 22 de julho de 2013

A ENTRADA NO REINO DE DEUS

 João 3:1-15

1 E havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
2 Este foi ter de noite com Jesus e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és mestre vindo de Deus, porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele.
3 Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.
4 Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?
5 Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.
6 O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
7 Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
8 O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito.
9 Nicodemos respondeu e disse-lhe: Como pode ser isso?
10 Jesus respondeu e disse-lhe: Tu és mestre de Israel e não sabes isso?
11 Na verdade, na verdade te digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que vimos, e não aceitais o nosso testemunho.
12 Se vos falei de coisas terrestres, e não crestes, como crereis, se vos falar das celestiais?
13 Ora, ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do Homem, que está no céu.
14 E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado,
15 para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

A expressão traduzida por “E”, no início do parágrafo, mostra que o texto é uma continuação do anterior. Pode-se pensar três coisas. Que é uma sequência cronológica, colocada sucessivamente; ou uma sequência lógica dentro do assunto que aparentemente João começou a descrever no capítulo 2; ou ainda, as duas coisas juntas. Para mim, a terceira ou a segunda parecem estar mais corretas.

A ideia de Nicodemos ser príncipe está associada provavelmente ao fato de ser ele um dos membros do conselho superior dos judeus, ou seja, ele era um dos líderes do judaísmo.
Ele toma precaução para não ser apanhado conversando com um simples filho de carpinteiro, ou com alguém estava transtornando seus colegas do Sinédrio. Ele vai ao encontro de Jesus à noite. Normalmente isto não era costume, a não ser em casos de reuniões secretas, ou coisa parecida. Havia uma angustia visível no coração desse fariseu. Alguns acreditam que o fato dele usar a primeira pessoa do plural significa que não era o único entre os fariseus a ficar impressionado com Jesus. Particularmente não creio que isso prove tal teoria, embora creia que ela seja verdadeira. É provável que o uso da primeira pessoa deve-se ao fato dos discípulos estarem presentes, afinal Nicodemos foi se encontrar com Jesus e não o contrário, logo, Jesus devia estar hospedado na casa de algum discípulo.
Mais tarde, Nicodemos tenta defender Jesus diante das acusações que seriam feitas pelos judeus (Jo 7:51). Além disso, depois da morte do Senhor, o líder entre os judeus ajudou a José de Arimateia a preparar o corpo de Jesus para o sepultamento. Não dá para saber se realmente ele se converteu, ou apenas se tornou simpatizante de Cristo, mas com certeza teve uma atitude muito nobre. Ele e José de Arimateia tiveram coragem de cuidar do corpo de Cristo, quando todos os discípulos haviam fugido.
Ele se impressiona com Jesus como todos os outros, pelos sinais que o Mestre fazia. Mas tudo indica que ele estava querendo saber mais. Ele aparentemente queria saber o que realmente se passava na mente de Cristo e qual seria realmente a sua missão. Ou ainda, ele queria respostas para questões da alma. Ao chamar Jesus de Rabi ele mostra muita humildade, sem se deixar levar pela posição social dele e de Cristo. Ele devia ser uma pessoa que seguia sua religião com seriedade e com desejo sincero de agradar a Deus. Talvez isso ocorra com você. Talvez você, assim como Nicodemos, leve a sério o cristianismo, mas ainda não teve um encontro real com Cristo, ainda não teve um encontro que apontasse para entrada da vida eterna.
Jesus imediatamente tratou de mostrar porque veio a este mundo. Mais uma vez Cristo mostra que os sinais não eram a coisa mais importante do ministério dEle. Sendo assim, ele começa a expor sobre a entrada no Reino do Deus e como isto é possível.

1.               É preciso ser transformado (v. 3)

“Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus.”

Apesar de todo conhecimento, Nicodemos não consegue entender o que Jesus está dizendo. Isto ocorre por aquilo que falamos nos dois sermões anteriores, ele estava racionalizando a fé. Jesus o interpela dizendo: “Tu és mestre de Israel e não sabes isso?”. A pergunta de Cristo fundamenta-se no conhecimento que Nicodemos com certeza tinha das Escrituras, mas não conseguia aplica-las ou interpretá-las corretamente. Muitos têm conhecimento teórico da Bíblia, mas não o aplicam da forma correta. Conhecer histórias da Bíblia é muito importante, mas não saber o que elas significam nas questões espirituais pode ser muito perigoso.
Este problema continua ocorrendo em nossos dias, inclusive na interpretação deste texto. Muitas pessoas sérias têm crido nas palavras de Allan Kardec que disse que Jesus aqui se refere a reencarnação. Assim como Nicodemos são pessoas que normalmente têm muita intelectualidade, mas pouca vivência de fé. A doutrina da reencarnação não sobrevive, não apenas ao escrutínio de toda Bíblia, mas na simples observação deste texto. Observe que Jesus afirma que a vida eterna é para aquele que crer nele (v. 14-16), não por se reencarnar. Jesus usa a expressão “nascer de novo” numa clara referência à conversão, assim como Paulo quando afirma: “Que aquele que está em Cristo é uma nova criatura” (II Co 5:17). A nova criatura descrita por Paulo representa o novo nascimento descrito por Cristo, e isto só pode ocorrer mediante a fé no Filho do Homem levantado. Kardec tenta racionalizar a fé. Ele afirma:
“Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, a maioria das máximas do Evangelho são ininteligíveis, razão pela qual deram origem a tantas interpretações contraditórias. Esse princípio é a chave que lhes restituirá o verdadeiro sentido.” (KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo, cap. 4, item 17)

A questão não se encontra se as máximas do Evangelho são inteligíveis, o problema é que não se quer aceitar a simplicidade do evangelho de Jesus, a saber, aquele que nele crê terá a vida eterna mediante o arrependimento e a transformação operada pelo Espírito Santo. Simples assim. Não depende de nada do homem. Além disso, a Bíblia é muito clara que não há novas oportunidades (Hb 9:27; Ec 9:5, 10). 
O que Jesus estava mostrando para Nicodemos que ele precisava se converter, ou seja, se tornar uma nova criatura, nascendo espiritualmente de novo. Não eram os milagres o maior sinal de Deus, mas a transformação que Ele pode operar no coração de um homem transformando-o em nova criatura, isto é, fazendo com que ele nasça de novo. Este novo nascimento pode ocorrer com você, desde que aceite a Cristo. E ele mostra que isto começa com o arrependimento.   

2.               A transformação começa no arrependimento (v. 5)

“Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.”

Jesus está tratando tudo no campo espiritual, mas Nicodemos mantem seu foco no campo material. Por isso ele pergunta: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura, pode tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer? Muitas vezes isso ocorre conosco. A Palavra de Deus sempre nos apresenta questões espirituais, mas nós muitas vezes só conseguimos enxergar questões humanas. Nicodemos poderia muito bem lembrar que a renovação espiritual é falada na Bíblia desde o Antigo Testamento, mas não lembrou, ou não quis lembrar. Senão, vejamos um pequeno exemplo:
“E lhe darei um mesmo coração, e um espírito novo porei dentro deles; e tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei um coração de carne; para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; e eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus.” (Ez 11:19,20)

Repare que Ezequiel fala com outras Palavras a mesma coisa que Jesus diz e a mesma que Paulo diz em II Coríntios 5:17. Mas somente com a visão espiritual podemos entender isso. Se mantivermos nossa visão neste mundo teremos muita dificuldade.
Jesus na realidade responde a mesma coisa de duas maneiras diferentes para que seu ensino fosse bem assimilado pelo mestre Nicodemos.
A ideia da água aqui é uma alusão ao batismo, isso mostra a importância deste ritual, mas por outro lado faz menção ao que João Batista vinha pregando, ou seja, o arrependimento. O verdadeiro novo nascimento começa quando temos um arrependimento sincero dos nossos pecados. O Reino de Deus começa a ser alcançado por nós, quando nos arrependemos de verdade.
Querer ou praticar boas obras não leva ninguém para o céu sem o reconhecimento pleno da situação diante de Deus (Ef 2:8-10). O que Jesus estava mostrando para Nicodemos que o legalismo e a tradição farisaica, não eram suficientes. O passo inicial é o reconhecimento do pecado e o arrependimento. Era isso que João Batista estava ensinando e Jesus agora faz alusão a este fato.
Muitos estão nas igrejas mas não sabem nem sequer o que significa realmente se arrepender. Muitos afirmam que são cristãos, mas nunca foram confrontados com o pecado. Para que haja transformação o arrependimento deve estar latente em nossos corações.
Não é à toa que Paulo, quando faz alusão ao batismo, afirma que com ele somos sepultados com Cristo para andarmos em novidade de vida (Rm 6:4). Esta novidade compreende a aceitação de que precisamos abandonar o pecado e vivermos para Deus. É por isso que mais uma vez repito, não se pode batizar quem não entende o significado disso. O batismo é uma questão de fé e arrependimento através do entendimento de ambos. Jesus precisa ser entendido e aceito para que possamos passar por este ritual.

3.               O arrependimento ocorre junto com a ação do Espírito Santo (v. 5)

“Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus.”

Mais adiante Jesus vai ensinar que o Espírito Santo é quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8). Na realidade estas expressões de Cristo vão completar este ensino que no momento Ele passa para Nicodemos.
Nossa transformação ocorre quando somos tocados pelo Espírito e convencidos por Ele. Para alguns, tal convencimento também é uma obra sobrenatural. De qualquer forma o importante é saber se realmente se está entendendo o evangelho que está sendo ensinado.
O evangelho é uma obra do Espírito Santo. É ele que opera em nossas vidas e nos faz ver a vida eterna. Não podemos aceitar a Cristo se não for através do toque especial do Espírito Santo.
O entendimento intelectual sobre a salvação é muito importante, mas sem ser realmente tocado pelo poder transformador do Espírito Santo não se obtêm a verdadeira salvação. A salvação não compreende a ação do homem com seus méritos, mas é a ação de Deus pela sua graça através da obra do Espírito Santo. Este fato só pode ocorrer quando nos arrependemos de verdade. Foi isso que Pedro ensinou no livro de atos.
“E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.” (At 2:38)

Pedro está fazendo alusão ao ensino que Jesus estava ministrando a Nicodemos. Somente através do arrependimento sincero e da aceitação da obra de Cristo podemos realmente receber o Espírito Santo. Mas, por outro lado, tudo isso é uma obra do próprio Espírito (Jo 16:8).
Todo ser humano foi picado pela serpente do pecado. Todos estão condenados à morte eterna, ou seja, definitivamente separados de Deus, a não ser que olhem para Jesus. As serpentes no deserto representavam uma maldição de Deus, mas somente através daquele que se tornou maldição pode-se quebrar a maldição do inferno. É necessário conhecer a Jesus e aceitar a sua obra redentora.

4.               É preciso aceitar a obra redentora de Cristo (v. 14 ,15)

“E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

João é o livro que mais usa a expressão “vida eterna”. Ninguém explica melhor o que de fato Jesus veio fazer neste mundo do que João. São 17 vezes que ele usa essa expressão em seu evangelho e mais 6 em sua primeira carta (valores conferidos na Versão Revista e Corrigida).
O olhar para a serpente prefigura a fé em Cristo e em sua obra redentora na Cruz. O Filho do Homem levantado, compreende o levantar no madeiro para a exposição diante dos homens.
Jesus está se referindo a Números 21:4-13. Nesta passagem os israelitas estavam rodeando a terra de Edom, mas se rebelaram contra Deus e a liderança por Ele estabelecida, Moisés. Eles não conseguiam entender que algo muito maior esperava por eles na terra prometida e começaram a murmurar e reclamar, querendo, inclusive voltar para o Egito. Deus então manda serpentes ardentes para atacar o povo, e muitos estavam morrendo. Neste momento o povo se arrepende e volta-se para Moisés. Este, por sua vez, intercede e o Senhor manda que se faça uma serpente da mesma espécie, feita de metal e a levantasse para que todo aquele que fosse picado pelas serpentes olhasse para aquela peça de metal e fosse curado. Infelizmente o povo não entendeu a mensagem de Deus e começou a adorar aquela serpente e Ezequias em sua reforma espiritual tirou isto do meio do povo (I Re 18:4).
Jesus está mostrando que aquela serpente estava apontando para o sacrifício dEle. Ao ser levantado na cruz Jesus está dizendo que devemos olhar para Ele para sermos salvos (Hb 12:2). Olhar para Jesus implica em aceitar que sua obra redentora foi completa na cruz. Implica em compreender que ele é o único caminho e o único nome para nossa salvação (Jo 14:6; At 4:12). Este é passo final para a salvação. Aceitar o sacrifício de Jesus, depois de ser transformado pelo Espírito Santo e arrepender-se de seus pecados. É muito mais simples do que se prega nos dias de hoje. O que falta para você?

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